Plano de segurança personalizado é um roteiro curto, combinado de antemão, que diz o que você faz, para quem avisa e para onde vai se uma situação de risco acontecer em casa, na rua ou no trabalho. Para montar o seu, siga seis passos: mapear onde o risco aparece, escolher pessoas de confiança e um código, reunir documentos, deixar os canais de ajuda à mão, planejar a saída de casa quando o risco mora junto e adaptar o plano aos outros lugares da rotina.
O plano não transfere para você a responsabilidade pela violência de outra pessoa. Ele serve para que, num momento de medo, você não precise decidir tudo do zero. E vale para quem vive violência doméstica, para quem foi ameaçada por um ex, para quem sofre perseguição ou para quem só quer se organizar melhor.
Passo 1: mapear onde, quando e com quem o risco aparece
Mapear o risco é anotar as situações concretas em que você já se sentiu ameaçada ou em que sabe que pode acontecer algo. O plano parte desse mapa, e não de uma lista genérica de dicas.
Escreva, em papel ou num lugar que só você acessa, respostas curtas para quatro perguntas:
- Onde: em casa, no trajeto, no trabalho, na casa de parentes, em encontros marcados pela internet.
- Quando: à noite, depois de bebida, em dias de pagamento, quando ele volta do trabalho, nas visitas aos filhos.
- Com quem: o parceiro atual, um ex, um colega, um vizinho, alguém que você ainda não conhece pessoalmente.
- O que já aconteceu: gritos, ameaças, objetos quebrados, perseguição, mensagens insistentes.
O mapa mostra os momentos que pedem preparo. Ele não mostra se a situação é "grave o bastante" para pedir ajuda: qualquer ameaça já justifica procurar orientação.
Erro comum: achar que só precisa de plano quem já sofreu agressão física. Ameaças, controle e intimidação costumam vir antes, e é nessa fase que o plano mais ajuda.
Passo 2: escolher pessoas de confiança e combinar um código
A rede do plano é formada por duas ou três pessoas que topam ser acionadas a qualquer hora e sabem exatamente o que fazer quando você pede ajuda.
Converse com cada uma e combine:
- Uma palavra ou frase de código que pareça comum, como "você pode trazer aquela panela amanhã?", e que significa "estou em perigo, ligue para o 190".
- O que ela faz ao receber o código: ligar para a polícia, ir até você, buscar as crianças, ou só ligar de volta para criar um motivo para você sair.
- Onde você pode ficar por alguns dias, se precisar sair de casa.
Suponha que uma mulher combine com a irmã que a mensagem "esqueci o guarda-chuva aí" quer dizer "me ligue agora e diga que nossa mãe passou mal". A ligação dá a ela um motivo aceitável para sair sem confronto.
Erro comum: escolher alguém que também convive com quem ameaça e pode, sem querer, contar sobre o plano. Prefira pessoas sem contato próximo com essa pessoa.
Passo 3: reunir os documentos e guardar cópias fora de casa
A pasta de documentos é o conjunto de papéis que você precisaria para recomeçar a vida em outro endereço, para registrar uma ocorrência ou para pedir apoio na Defensoria Pública.
Separe originais ou cópias de:
- RG, CPF, título de eleitor e carteira de trabalho;
- certidões de nascimento ou casamento, suas e dos filhos;
- cartão do banco, comprovante de residência e documentos de imóvel ou veículo, se houver;
- carteira de vacinação e documentos escolares dos filhos;
- registros de ameaças: prints com data, áudios, fotos de objetos quebrados, nomes de quem presenciou.
Guarde uma cópia fora de casa: com uma pessoa de confiança, no trabalho ou numa conta de e-mail criada só para isso, com senha que ninguém mais conhece. Os registros de ameaça ajudam a contar o que aconteceu, mas não substituem o boletim de ocorrência. Para entender o que cada documento oficial informa, veja o que as certidões de antecedentes e de processos mostram e o que fica de fora.
Erro comum: salvar tudo num celular ou computador que a outra pessoa conhece a senha ou consegue mexer. Se ela tem acesso aos seus aparelhos, o lugar mais seguro para o plano é fora deles.
Passo 4: deixar os canais de ajuda ao alcance
Canal de ajuda é o serviço que você aciona conforme o momento: perigo agora, orientação ou apoio para os próximos passos. Saber qual usar evita perder tempo.
| Situação | Canal | O que ele faz |
|---|---|---|
| Agressão acontecendo ou ameaça imediata | 190 | Envia a polícia ao local. |
| Dúvida sobre o que fazer, quer orientação ou denunciar | Ligue 180 | Atendimento gratuito, a qualquer hora, que orienta e encaminha para a rede de proteção. |
| Registrar o que aconteceu e pedir medida protetiva | Delegacia da Mulher | Registra a ocorrência e encaminha o pedido de proteção à Justiça. |
| Apoio jurídico gratuito, separação, guarda, pensão | Defensoria Pública | Orienta e acompanha o caso sem custo para quem não pode pagar advogado. |
Anote esses números num papel guardado na carteira, além do celular. Se a sua cidade não tem Delegacia da Mulher, qualquer delegacia pode registrar a ocorrência.
Erro comum: esperar ter "provas suficientes" para ligar. O Ligue 180 orienta mesmo quando você ainda não sabe o que quer fazer.
Passo 5: planejar a saída quando o risco está dentro de casa
Plano de saída é a parte do roteiro que define como deixar a casa com rapidez, se a situação piorar, sem precisar improvisar.
- Cômodos: em uma discussão, procure ficar em um ambiente com porta para a rua e longe da cozinha, da garagem e de lugares com objetos que possam ferir.
- Bolsa pronta: deixe com alguém de confiança uma bolsa com cópia das chaves, documentos, algum dinheiro, carregador e roupas para alguns dias, suas e dos filhos.
- Destino: saiba para onde ir de dia e de madrugada, e como chegar sem depender do carro da outra pessoa.
- Crianças: se forem maiores, ensine a ligar para o 190 e a ir para a casa de um vizinho combinado.
Ter um pouco de dinheiro e uma conta só sua faz parte dessa preparação. O artigo sobre educação financeira e autonomia para sair de uma relação abusiva mostra como organizar isso aos poucos.
Erro comum: avisar a pessoa que ameaça que você vai embora. Esse costuma ser um momento de maior risco; a orientação geral é sair primeiro e comunicar depois, com apoio.
Passo 6: adaptar o plano à rua, ao trabalho e aos encontros, e revisar
Adaptar o plano é repetir os passos anteriores para cada lugar do mapa do passo 1, com ajustes simples.
- Rua e trajeto: varie horários quando houver perseguição, avise alguém quando sair e quando chegar, e saiba onde há comércio aberto no caminho.
- Trabalho: se a ameaça vem de alguém de fora, a portaria ou a segurança do prédio pode ter uma descrição dele; se vem de dentro, registre tudo, como explica o texto sobre segurança da mulher no ambiente de trabalho e assédio.
- Encontros marcados online: combine com uma amiga onde e com quem você está, e desconfie de quem pede dinheiro antes de encontrar você, sinal comum do golpe do falso namorado.
Revise o plano sempre que algo mudar: mudança de endereço, de emprego, fim do relacionamento ou novas ameaças. Uma revisão rápida a cada poucos meses basta para conferir se os números, as pessoas e os lugares ainda valem.
Erro comum: tratar o plano como um documento pronto. Ele só funciona se as pessoas de confiança ainda estiverem disponíveis e se você lembrar dele sem precisar consultar.