Depois do fim de um relacionamento, a revisão digital segue uma ordem: primeiro listar o que era compartilhado, depois proteger o e-mail principal, trocar as demais senhas, encerrar sessões abertas, desligar o compartilhamento de localização e, por último, revisar redes sociais e o próprio celular. A ordem importa porque o e-mail é a chave de recuperação de quase todas as outras contas. Se ele continuar acessível a outra pessoa, as senhas novas podem ser redefinidas por ela em minutos.

Um cuidado antes de começar: se o relacionamento envolvia controle, ameaças ou medo, mudanças bruscas podem ser percebidas e gerar reação. Nesse caso, vale planejar os passos com alguém de confiança e com orientação da Central de Atendimento à Mulher, pelo Ligue 180, que funciona 24 horas e é gratuito. Em situação de perigo imediato, ligue 190.

Passo 1: liste contas e aparelhos que eram compartilhados

Antes de trocar qualquer senha, faça uma lista em papel ou num bloco de notas que só você acessa. Ela evita esquecer justamente a conta que ficou aberta.

  • Aparelhos: celular, tablet, notebook, televisão, videogame, relógio inteligente, assistente de voz, câmera de segurança.
  • Contas: e-mail, nuvem de fotos, redes sociais, mensageiros, bancos, lojas online, aplicativos de transporte e de comida, plataformas de vídeo e música.
  • Acessos do dia a dia: senha do Wi-Fi, código do portão eletrônico, fechadura digital, aplicativo do carro.

Marque em cada item se a outra pessoa sabia a senha, se usava o aparelho ou se a conta era conjunta. Contas conjuntas, como a de uma plataforma de vídeo paga em dupla, pedem uma conversa ou o cancelamento e a criação de uma conta nova.

Passo 2: proteja o e-mail principal primeiro

Troque a senha do e-mail por uma nova, longa e que você nunca usou. Uma frase com quatro ou cinco palavras sem relação entre si é mais forte e mais fácil de lembrar do que uma combinação curta com símbolos.

Em seguida, abra as configurações de segurança da conta e confira três pontos: o telefone de recuperação, o e-mail de recuperação e as perguntas de segurança. É comum que o número ou o e-mail do ex-parceiro tenha sido cadastrado ali em algum momento. Perguntas como "nome do primeiro animal de estimação" são fáceis de responder para quem conviveu com você, então troque por respostas que ninguém deduza.

Aproveite para olhar duas configurações que costumam ficar esquecidas. A primeira é o encaminhamento automático: uma regra que reenvia cópias dos seus e-mails para outro endereço continua funcionando mesmo depois da troca de senha. A segunda são os aplicativos e sites conectados à conta, aqueles em que você entra com o botão "continuar com o e-mail". Remova o que não reconhece ou não usa mais.

Passo 3: ative a verificação em duas etapas

A verificação em duas etapas pede, além da senha, um código ou uma confirmação no seu celular. Mesmo que alguém descubra a senha nova, não entra sem esse segundo fator.

Ative primeiro no e-mail, depois em redes sociais, mensageiros e bancos. Quando houver opção, prefira um aplicativo autenticador ou a confirmação no próprio aparelho em vez de SMS. Guarde os códigos de backup que a conta oferece em um lugar físico seguro. Nos mensageiros, ative também o PIN de registro, que impede que alguém cadastre o seu número em outro aparelho.

Um erro comum é ativar a verificação em duas etapas apontando para um número de telefone que a outra pessoa ainda controla, como uma linha de plano familiar no nome dela. Se esse for o seu caso, a portabilidade da linha para o seu nome ou um número novo resolvem o problema antes de qualquer outra configuração.

Passo 4: troque as outras senhas e encerre as sessões abertas

Trocar a senha nem sempre derruba quem já estava logado. Por isso, depois de cada troca, procure nas configurações da conta a lista de dispositivos conectados ou de sessões ativas e encerre tudo o que você não reconhece, ou simplesmente encerre todas e entre de novo só nos seus aparelhos.

Nos mensageiros, confira a lista de aparelhos conectados: um computador vinculado por QR code continua recebendo suas mensagens até ser desconectado. Na nuvem de fotos, veja os álbuns compartilhados e os aparelhos que sincronizam a conta. Nos aplicativos de banco, revise os dispositivos autorizados e, se a outra pessoa sabia sua senha de transações, troque também.

Use senhas diferentes em cada serviço. Um gerenciador de senhas resolve o problema de memorizar tudo e avisa quando uma senha se repete.

Para não se perder, siga a lista do passo 1 de cima para baixo e marque cada conta concluída. Contas de banco e de compras online merecem prioridade logo depois das redes sociais, porque guardam cartões e endereço.

Passo 5: desligue o compartilhamento de localização

A localização pode estar compartilhada em lugares menos óbvios do que o aplicativo de mapas. Confira:

  • o aplicativo de mapas, na opção de compartilhamento de localização em tempo real;
  • o recurso de localizar aparelho e os grupos familiares do sistema do celular;
  • mensageiros que permitem enviar localização em tempo real por horas;
  • aplicativos de relógio inteligente, de corrida e de carro;
  • fotos publicadas com a localização gravada no arquivo.

No iPhone, a função Verificação de Segurança, em Ajustes, dentro de Privacidade e Segurança, reúne numa só tela o que você compartilha com outras pessoas e permite interromper tudo. No Android, a revisão é feita na conta do Google e nas configurações de localização, e os nomes dos menus mudam conforme o fabricante.

Desligar o compartilhamento costuma gerar uma notificação ou simplesmente fazer sua localização sumir da tela da outra pessoa. Se você ainda está planejando sua saída de uma relação com controle, essa é uma das mudanças que vale fazer no momento combinado com sua rede de apoio, e não antes.

Passo 6: revise redes sociais e quem vê o que você publica

Nas redes, ajuste quem pode ver suas publicações, quem pode marcar você e quem pode ver a lista de amigos ou seguidores. Desative a exibição de status "online" e a confirmação de leitura, se preferir que não acompanhem sua rotina. Evite publicar onde está enquanto ainda está no lugar; deixe para depois.

Bloquear ou não o ex-parceiro é uma decisão pessoal. Se houver comportamento insistente, bloquear e guardar prints das tentativas de contato costuma ser o caminho mais protetor.

Passo 7: confira o próprio celular e os objetos do dia a dia

Alguns sinais indicam que o celular pode ter um aplicativo de monitoramento instalado: bateria que acaba rápido sem motivo, aparelho quente parado, consumo de dados alto, aplicativos desconhecidos com permissão de acessibilidade ou de administrador do dispositivo. Revise a lista de aplicativos instalados e as permissões de localização, microfone, câmera e acessibilidade.

Se encontrar algo suspeito, não apague na hora. Esse aplicativo pode servir de prova, e removê-lo avisa quem instalou. Anote o nome, tire foto da tela com outro aparelho e procure orientação na Delegacia da Mulher ou pelo Ligue 180 antes de agir. Uma restauração de fábrica, feita depois disso e com backup só de fotos e contatos, costuma eliminar esse tipo de programa.

Para objetos, os celulares mais recentes, tanto iPhone quanto Android, avisam quando um rastreador Bluetooth desconhecido acompanha você por um tempo. Se o alerta aparecer, siga as instruções da própria notificação para localizar o objeto, e trate o caso como você trataria o aplicativo suspeito: registre antes de descartar.

Passo 8: atualize os acessos da casa e o seu plano de apoio

Por último, troque a senha do Wi-Fi e o nome da rede, a senha do roteador, os códigos de fechadura e portão e o acesso a câmeras de segurança. Câmeras ligadas a uma conta em nome de outra pessoa continuam transmitindo para ela; nesse caso, desconecte o aparelho e crie uma conta própria.

Suponha, como exemplo hipotético, alguém que trocou todas as senhas mas esqueceu que a câmera da sala estava cadastrada no aplicativo do ex-parceiro. A revisão de aparelhos do passo 1 existe justamente para que esse item não escape. Feito isso, combine com uma ou duas pessoas próximas como avisar se algo estranho acontecer, como tentativas de login ou mensagens de números desconhecidos. As orientações para criar um plano de segurança personalizado ajudam a organizar essa parte.