Você pesquisou o próprio nome e encontrou seu endereço, seu telefone ou o nome dos seus pais em sites que você nunca usou. Na maioria dos casos, esses dados vêm de cadastros comerciais, de registros públicos ou de publicações antigas, e dá para reduzir bastante a exposição em três frentes: limpar o que está nas suas próprias contas, pedir a remoção aos sites e aos buscadores e evitar que novos dados vazem. Não existe apagar tudo de uma vez, mas cada passo diminui o que um desconhecido, ou alguém de quem você quer distância, consegue encontrar.
Como o problema aparece
A situação costuma surgir de três formas: numa busca pelo próprio nome, quando alguém comenta que "achou você" sem que você tenha passado o contato, ou quando chegam mensagens e ligações de desconhecidos que sabem dados que você não divulgou.
Para entender o tamanho da exposição, faça uma busca organizada, com calma:
- pesquise seu nome completo entre aspas;
- pesquise o nome junto com a cidade, e depois junto com o telefone;
- pesquise o seu e-mail principal e o seu nome de usuário das redes;
- veja a aba de imagens, para conferir fotos de casa, do carro ou do trabalho.
Anote cada endereço de página em que um dado aparece, junto com o tipo de dado exposto. Uma planilha simples com três colunas, página, dado e data em que você pediu a remoção, já resolve. Essa lista vai guiar os pedidos e mostrar o que ainda falta.
De onde vêm esses dados
As causas mais comuns são quatro, e cada uma pede uma resposta diferente:
- Cadastros comerciais e vazamentos: dados informados em lojas, aplicativos e serviços acabam em bases vendidas ou vazadas, e reaparecem em sites de "consulta de pessoas".
- Suas próprias publicações: perfis abertos, posts antigos com localização, fotos com a fachada de casa ou o número do prédio, currículos publicados com telefone e endereço.
- Registros públicos: alguns dados são públicos por natureza. Quem tem empresa, inclusive MEI, tem nome e endereço do CNPJ disponíveis em consultas abertas; processos judiciais que não correm em segredo de justiça podem mostrar nomes das partes.
- Terceiros: amigos, familiares ou a escola dos filhos que publicam fotos e informações sem pensar na exposição.
Erro comum: concluir que alguém "hackeou" suas contas quando o dado, na verdade, veio de uma dessas fontes. Antes de trocar tudo em pânico, veja onde o dado aparece; isso costuma apontar a origem.
Um exemplo hipotético ajuda a ligar sintoma e causa: o telefone aparece num site de consulta de pessoas junto com um endereço antigo, de dez anos atrás. A combinação indica cadastro comercial antigo, e não algo recente. Já um endereço novo, de poucos meses, aparecendo numa foto marcada por uma amiga aponta para publicação de terceiros, e a solução é outra.
Correção 1: comece pelo que está sob o seu controle
As suas contas são a parte mais rápida de resolver. Revise, uma rede de cada vez:
- deixe o perfil privado ou restrinja quem vê publicações antigas;
- apague ou arquive posts com localização, fachada, placa do carro ou uniforme do trabalho;
- remova telefone e e-mail das informações públicas do perfil;
- desligue a marcação automática de localização nas fotos e nas publicações.
Peça também a pessoas próximas que retirem fotos em que apareçam sua casa, seu trabalho ou a escola dos seus filhos. Um pedido direto e sem justificativa longa costuma ser atendido: "Pode tirar essa foto? Estou reduzindo o que aparece sobre mim."
Correção 2: peça remoção aos sites e aos buscadores
Sites de consulta de pessoas e outros que tratam seus dados costumam ter um canal de privacidade ou um formulário de remoção. A lei brasileira de proteção de dados (LGPD) garante, entre outros direitos, que você peça informações sobre o uso dos seus dados e, em muitas situações, a eliminação deles. Faça o pedido por escrito, guarde a data e o protocolo e repita se não houver resposta.
Um modelo curto costuma bastar:
Solicito a eliminação dos meus dados pessoais (nome, endereço e telefone) publicados na página indicada abaixo, com base nos direitos de titular previstos na lei de proteção de dados. Peço também que informem de onde os dados foram obtidos. Página: (cole aqui o endereço da página).
Envie um pedido por página ou por site, e não um pedido genérico para vários lugares. Se o site exigir documento para confirmar a identidade, envie só o necessário e, se possível, cubra os números que não forem pedidos.
Os buscadores são uma frente separada. O Google, por exemplo, tem um formulário para pedir que resultados com dados pessoais, como telefone, endereço residencial e documentos, deixem de aparecer nas buscas. Os critérios mudam com o tempo e nem todo pedido é aceito, por isso confira as regras na central de ajuda do próprio buscador.
Atenção a um detalhe que confunde: tirar um resultado do buscador não apaga a página original, só dificulta que ela seja encontrada. O ideal é pedir as duas coisas, ao site e ao buscador.
Para registros públicos, como dados de CNPJ, a remoção geralmente não é possível. Nesse caso, vale conversar com o contador sobre a possibilidade de usar outro endereço para a empresa no futuro, conforme as regras do seu município.
Correção 3: quando a exposição vem acompanhada de ameaça
Se os seus dados foram publicados de propósito para intimidar, por exemplo num post que mostra seu endereço com ameaça ou incitação, a situação deixa de ser só de privacidade. Faça capturas de tela com data, hora e endereço da página antes de pedir a remoção, para não perder a prova.
Com esse material, procure a Delegacia da Mulher ou outra delegacia para registrar a ocorrência. Se a exposição vier de ex-companheiro, a situação pode estar dentro da Lei Maria da Penha, e a Defensoria Pública orienta sem custo sobre medidas de proteção. A Central de Atendimento à Mulher, pelo Ligue 180, indica os serviços da sua cidade. Se alguém aparecer no seu endereço ou houver perigo imediato, ligue 190.
Como evitar que seus dados voltem a aparecer
A prevenção é uma questão de hábito, e não de uma configuração única. Algumas práticas reduzem bastante a chance de novos dados circularem:
- Informe só o necessário: em cadastros de loja e promoções, pergunte se CPF e endereço são obrigatórios. Muitas vezes não são.
- Separe contatos: use um e-mail para cadastros e compras e outro para contas importantes.
- Atrase as publicações: poste fotos de lugares depois de sair deles, e não em tempo real.
- Revise a cada poucos meses: repita a busca pelo seu nome e pelo telefone, e confira se algo novo apareceu.
- Proteja as contas: senhas diferentes e verificação em duas etapas evitam que um vazamento numa conta abra as outras.
Suponha, como exemplo hipotético, uma revisão trimestral: no primeiro mês você limpa as redes e faz os pedidos de remoção; nos meses seguintes, só confere se as páginas saíram do ar e se surgiu algo novo. Com o tempo, a busca pelo seu nome passa a mostrar só o que você escolheu mostrar. O texto sobre como revisar senhas, contas e localização compartilhada traz outros ajustes para as contas e o celular.